sábado, 3 de novembro de 2012

3 Gotas por noite.


Eu nem lembrava o endereço do blog, como pode? Mas o navegador lembra por mim. Eu começo a digitar o pedaço que sobrou de sanidade e ele preenche a lacuna. Ah, claro, esse era o endereço!
Eu não lembro mais os e-mails que mandei, não lembro as contas que paguei, e nem lembrava que esse computador pesava tanto. É tão lindo, cheio de história... Acabou ficando pesado. Como a dona, que por mais magra, pesa toneladas.
Eu estava aqui, pingando as 3 gotas no copo, sem me reconhecer, sem lembrar quem eu sou, sem lembrar de como é meu sorriso. Quantos dentes? Tem covinha? O olho brilha?
Eu tenho vontade de entrar num avião e ir. Não importa onde, eu quero longe, eu quero sozinha. Não sei como cheguei aqui, nunca diria. Mas quem sabe? Eu tenho amigos lindos, que amo de paixão, mas que não sabem nada da minha vida. Eles não perguntam e eu não tenho saco de levantar bandeira do “fudeu, preciso de ajuda”. Eu tenho fome de conversar sobre outra coisa que não seja a luta que passou na TV, ou a conhecida que se separou, nem a porra do doença de não sei quem, e a horas mal dormidas pro causa do bebe. Eu quero falar da vida, eu quero ir mais longe, eu quero mais inteligência e sensibilidade.
Tenho uma necessidade que a vida que criei não tá suprindo. Eu preciso de mais silêncio e de mais olhares de compreensão, de telepatia. Eu te olho, vc faz uma careta e eu te entendo. Eu preciso de mais leveza e mais calma.
A vida tá muito superficial. Eu fico querendo ser amiga de outras pessoas, estar em outra vida. O que aconteceu com os telefonemas? O que aconteceu com o “vc tá bem? Tô te achando meio sem brilho”. A gente nem se olha mais. Há anos não vejo alguém olhando no fundo dos meus olhos, procurando minha alma. O último recebeu R$400 na consulta por isso. É o que a vida se transformou: eu pago alguém pra se preocupar comigo, pra olhar no meu olho, pra falar comigo sobre feminismo, os dias loucos de hoje, como os códigos foram perdidos... O nome dele é Dr. Alguma Coisa...
A última vez que eu tentei forçar um encontro cheio de intimidade e conversas deliciosas, terminou como costuma terminar: bebedeira, risadas sem motivo. O dia seguinte eu mal lembrava. Meu peito não se encheu de amor, não se encheu de harmonia ao lembrar do ontem. Se encheu de ressaca e saco cheio.
E a culpa é minha. Eu aceito, eu vivo assim e até incentivo. Eu faço jantares com a TV ligada, eu vou a bares onde a música é tão alta que eu nem consigo fazer o pedido pro garçom, quanto mais falar do meu dia... Eu ando com pessoas que fazem piadas idiotas sobre coisa nenhuma.
O mundo tá nojento e eu tô com muita dificuldade de me distanciar disso tudo. Eu olho em volta e não há ninguém que eu admire de verdade, não existem mais abraços sinceros da minha parte. Eu virei uma cínica, que continua sociável porque não sabe fazer diferente. A minha natureza é generosa e acolhedora, mas a minha verdade atual é fria, distante e superficial. Eu não sei mais ver amor nas coisas nem nas pessoas, e na maior parte do tempo eu sinto raiva de boa parte das pessoas para as quais eu falo “bom dia”.
Eu virei um monstro solitário, cheio de gente em volta. Gente que me acha o máximo e que nem imagina, como eu tô podre por dentro. Gente que me olha cheio de admiração sem saber que eu sou uma farsa. Uma história mal contata, uma história que começou bem, mas que parou no meio, sem força pra um final feliz.
Eu pirei tanto que já aceito viver a “vidinha”, com preguiça sem fim de mudar, de revolucionar, de sair pra ver as flores e sentir o vento na cara. Eu virei uma velha que tem medo de largar tudo o que eu não quero mais. Eu virei uma fraca que acha que pode ser tarde demais. Eu queria mandar pra puta que pariu quem eu não admiro mais, mas tenho medo de ficar sozinha e recomeçar. Tenho medo de mandar pro inferno aqueles que me amam de verdade.
Eu, admitindo que tenho medo de ficar sozinha e recomeçar. A vida só pode estar de ponta cabeça mesmo. Eu nem lembro como se faz pra sorrir...

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