Eu nem lembrava o endereço do blog, como pode? Mas o
navegador lembra por mim. Eu começo a digitar o pedaço que sobrou de sanidade e
ele preenche a lacuna. Ah, claro, esse era o endereço!
Eu não lembro mais os e-mails que mandei, não lembro as
contas que paguei, e nem lembrava que esse computador pesava tanto. É tão
lindo, cheio de história... Acabou ficando pesado. Como a dona, que por mais
magra, pesa toneladas.
Eu estava aqui, pingando as 3 gotas no copo, sem me
reconhecer, sem lembrar quem eu sou, sem lembrar de como é meu sorriso. Quantos
dentes? Tem covinha? O olho brilha?
Eu tenho vontade de entrar num avião e ir. Não importa onde,
eu quero longe, eu quero sozinha. Não sei como cheguei aqui, nunca diria. Mas
quem sabe? Eu tenho amigos lindos, que amo de paixão, mas que não sabem nada da
minha vida. Eles não perguntam e eu não tenho saco de levantar bandeira do “fudeu,
preciso de ajuda”. Eu tenho fome de conversar sobre outra coisa que não seja a
luta que passou na TV, ou a conhecida que se separou, nem a porra do doença de
não sei quem, e a horas mal dormidas pro causa do bebe. Eu quero falar da vida,
eu quero ir mais longe, eu quero mais inteligência e sensibilidade.
Tenho uma necessidade que a vida que criei não tá suprindo.
Eu preciso de mais silêncio e de mais olhares de compreensão, de telepatia. Eu
te olho, vc faz uma careta e eu te entendo. Eu preciso de mais leveza e mais
calma.
A vida tá muito superficial. Eu fico querendo ser amiga de
outras pessoas, estar em outra vida. O que aconteceu com os telefonemas? O que
aconteceu com o “vc tá bem? Tô te achando meio sem brilho”. A gente nem se olha
mais. Há anos não vejo alguém olhando no fundo dos meus olhos, procurando minha
alma. O último recebeu R$400 na consulta por isso. É o que a vida se
transformou: eu pago alguém pra se preocupar comigo, pra olhar no meu olho, pra
falar comigo sobre feminismo, os dias loucos de hoje, como os códigos foram
perdidos... O nome dele é Dr. Alguma Coisa...
A última vez que eu tentei forçar um encontro cheio de
intimidade e conversas deliciosas, terminou como costuma terminar: bebedeira,
risadas sem motivo. O dia seguinte eu mal lembrava. Meu peito não se encheu de
amor, não se encheu de harmonia ao lembrar do ontem. Se encheu de ressaca e
saco cheio.
E a culpa é minha. Eu aceito, eu vivo assim e até incentivo.
Eu faço jantares com a TV ligada, eu vou a bares onde a música é tão alta que
eu nem consigo fazer o pedido pro garçom, quanto mais falar do meu dia... Eu
ando com pessoas que fazem piadas idiotas sobre coisa nenhuma.
O mundo tá nojento e eu tô com muita dificuldade de me
distanciar disso tudo. Eu olho em volta e não há ninguém que eu admire de
verdade, não existem mais abraços sinceros da minha parte. Eu virei uma cínica,
que continua sociável porque não sabe fazer diferente. A minha natureza é
generosa e acolhedora, mas a minha verdade atual é fria, distante e
superficial. Eu não sei mais ver amor nas coisas nem nas pessoas, e na maior
parte do tempo eu sinto raiva de boa parte das pessoas para as quais eu falo
“bom dia”.
Eu virei um monstro solitário, cheio de gente em volta. Gente
que me acha o máximo e que nem imagina, como eu tô podre por dentro. Gente que
me olha cheio de admiração sem saber que eu sou uma farsa. Uma história mal
contata, uma história que começou bem, mas que parou no meio, sem força pra um
final feliz.
Eu pirei tanto que já aceito viver a “vidinha”, com preguiça
sem fim de mudar, de revolucionar, de sair pra ver as flores e sentir o vento
na cara. Eu virei uma velha que tem medo de largar tudo o que eu não quero
mais. Eu virei uma fraca que acha que pode ser tarde demais. Eu queria mandar
pra puta que pariu quem eu não admiro mais, mas tenho medo de ficar sozinha e
recomeçar. Tenho medo de mandar pro inferno aqueles que me amam de verdade.
Eu, admitindo que tenho medo de ficar sozinha e recomeçar. A
vida só pode estar de ponta cabeça mesmo. Eu nem lembro como se faz pra
sorrir...
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